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Esta é a lógica financeira: investir o mínimo para obter o máximo, esgotar os recursos que houver, criar dependências duradouras ou eternas, o poder sobre outros. É sobre este domínio que caiu a Europa do euro, embora ainda apenas se sintam os seus dedos frios e vorazes nos países ajustados. Sim, porque o ajustamento não é, como nos disseram, do défice ou da dívida. Se fosse, não acham que já teríamos visto alguns resultados ainda que tímidos?

Pois é, o falhanço do governo pode ser, afinal, um sucesso nessa perspectiva, porque depois de aplicar o programa, uma coisa é certa: os cidadãos estarão ajustados e o país também. Ambos irreconhecíveis: um país descaracterizado e pobre e cidadãos amedrontados e desanimados.

Se em vez de programas de ajustamento tivessem envolvido os cidadãos, de forma clara e responsável, num programa de reanimação da economia, além da mobilização das comunidades, da coesão e motivação, veríamos agora alguns resultados que apontariam para a possibilidade de pagar a dívida.

Mas não era esse o plano. O plano era alterar significativamente o equilíbrio social, baixar as expectativas, adaptar o valor trabalho a interesses de uma pretensa competitividade global. Decidiram por nós o modelo de país, ajustaram-no às suas conveniências.

Quando nos apresentavam o sinal vermelho os mercados estão nervosos, já era a mentalização em curso. Acreditam que, na lógica dos mercados, há quem aposte contra nós? Pois é, mas fica tudo no segredo dos gabinetes das agências financeiras. É como colocar as vidas concretas de pessoas numa roleta de um casino montado à medida dos mercados.

Dizerem-nos que vivemos ainda em democracia é risível. Na sua argumentação manhosa podem até apresentar as antenas abertas, os debates políticos, a liberdade de expressão. A democracia é muito mais abrangente e funcional do que esse patamar da tagarelice diária televisiva. A democracia é uma cultura de responsabilidade e partilha de poder, negociação de decisões que tenham impacto na vida dos cidadãos. Essa promessa de democracia terá morrido com Sá Carneiro, provavelmente a última oportunidade que tivemos.

Nem cá nem na Europa do euro podemos falar hoje de democracia. Onde não há cidadãos, não há democracia, onde os cidadãos não contam, não há democracia, onde os cidadãos apenas têm de obedecer e conformar-se, numa domesticação sistemática, não há democracia.

 

 

publicado às 16:59

Lá temos nós de voltar ao Manual de sobrevivência do cidadão comum. Pensávamos nós que o pior já tinha passado, mas o pior ainda estava para vir. Comecemos por este orçamento. Este orçamento, à falta de melhor classificação, é delinquente e provocador, é contra as pessoas concretas e contra a economia, é mesmo sádico e desumano.

Vamos por partes:

Delinquente = porque, tal como a TSU, provocou instabilidade e insegurança, e potenciou o conflito social;

Provocador = pela rigidez e chantagem (próprias da linguagem do poder) na insistência da sua inevitabilidade;

Contra as pessoas concretas = e sempre as mesmas, as que não se podem defender, numa situação já frágil e precária;

Contra a economia = mesmo que tenham dado finalmente algum tempo de antena ao ministro Álvaro com uma medidas na mão que não convenceram, nem pelo timing nem pela sua insuficiência;

Sádico e desumano = só uma estrutura com prazer no exercício do poder que afecta milhões de pessoas, podia apresentar um orçamento miserável como este. 

 

Diversas vozes caseiras, de influência nas grandes decisões que afectam os cidadãos, têm participado activamente na propaganda deste governo (perdão, do par que decide por todos, o PM e o ministro das Finanças) e deste orçamento.

Foi preciso vir de França uma voz sensata a defender Portugal e outros países em idênticas circunstâncias, porque cá as vozes influentes seguem acriticamente a Alemanha e nem se importam de defender este orçamento. Podem utilizar o termo "doloroso" (desde que não seja doloroso para eles), para nos convencer que são pessoas compassivas, compreensivas. Mas ouvir este termo ou outros, na sua voz, ainda é mais repugnante. Mais vale estarem calados e revelar respeito pelas pessoas. Quem age contra as pessoas, deve pelo menos calar-se.

É certo que algumas vozes respeitadas, da área das finanças e da economia, têm demonstrado que este orçamento não é exequível, que matará a economia e que não reduzirá o défice.

É aqui que eu gostaria de chegar. Não é para baixar o défice, isso já percebemos, portanto atinge outros objectivos. É este o nível moral e cultural dos actuais gestores políticos e financeiros, os seus concidadãos podem passar fome mais um ou dois anos, mesmo que não seja para baixar o défice, mas porque atinge os verdadeiros objectivos: o valor do trabalho tem de baixar, o consumo tem de baixar, e assim até ao nível da escravatura. E defendem isto sem quaisquer rebates de consciência. 

Quando numa sociedade se chega a este grau de decadência moral e cultural, quando faltam lideranças com uma consciência humana, formação cristã, empatia e compaixão, os cidadãos têm de se unir e defender-se desta destruição das suas vidas.

 

Talvez nunca tenhamos estado numa situação tão complicada. Uma UE que se comporta de forma abusiva nos poderes, desequilibrada e inconsequente. Quando ouvimos o Presidente da CE dizer uma coisa hoje e o seu contrário amanhã, da forma mais ambígua e oportunista, percebemos bem que há agendas escondidas. A chanceler alemã comporta-se como se fosse a dona da Europa. E virá cá um dia destes como se fossemos uma qualquer colónia alemã. Também foi à Grécia com um discurso cinicamente compreensivo, o que é percebido pelos gregos como provocação. Mas a França tem mantido a sensatez. Esperemos que a sua voz seja ouvida.

 

 

 

publicado às 00:25

Se alguns de nós se derem ao trabalho de ir ao baú jornalístico e blogosférico, ficarão surpreendidos: durante uns três anos, pelo menos, o actual PM foi considerado o reformador. De forma acrítica ou oportunista (das duas venha o Diabo e escolha), as nossas elites culturais (porque se consideram assim) foram estudando a personagem, adivinhando a mente fértil da personagem, admirando a sua energia sem limites, a sua quase omnisciência, clarividência e ubiquidade, sem se importar muito com os sinais claríssimos da sua lógica egocêntrica, da linguagem do poder.

O PM podia gritar e esbracejar na AR, dar liçõezinhas de moral socialista à esquerda e à direita, repetir até à exaustão a sua receita milagrosa, ninguém parecia reparar. Agora, subitamente neste verão, todos acordaram para a realidade?

Acordaram (ou deixaram de ter vantagens pessoais e colectivas) e desvendam-nos aquilo que todos nós, os simples cidadãos, já vimos há muito tempo?

 

É que agora a torneirinha acabou e o desastre pode mesmo tocar nos privilégios das nossas elites culturais (porque se consideram assim). Quando eram só os cidadãos, ninguém queria saber. Quando era só a província, ninguém queria saber. Mas agora também são as capitais do sul e do norte, onde as elites culturais se movem.

 

É por isso que a opinião das nossas elites culturais não é muito de fiar. Nem nos devemos deixar intimidar, como simples cidadãos, pelas suas críticas manipuladoras. E isto vem a propósito da reacção à insatisfação legítima de alguns cidadãos relativamente ao actual Presidente. O tempo nos revelará quem viu o filme a tempo e quem se ficou à sombrinha da derradeira hipótese de protecção dos privilégios das elites culturais: o actual Presidente e o seu bloco central em formação, ou uma maioria absoluta do actual PSD. Mesmo que à custa da pobreza generalizada, da desmoralização generalizada, da confusão generalizada.

 

Neste filme só os cidadãos pagam a factura e sofrem as consequências da gestão danosa socialista, vai uma apostinha?

 

 

 

Iluminado nº 1: Das nossas elites culturais (porque assim se consideram), surge desde logo uma voz que se farta de enviar mensagens para a estratosfera mas que aterram apenas no terreno da sua quintarola: o PS. O veterano ex-Presidente não está para se reformar das mensagens ao povo. Ele são crónicas que poucos lêem, ele são frases bombásticas, mas o povo parece ignorá-lo sabiamente. Afinal, apenas o seu PS terá a dimensão encefálica para seguir a sua agendinha...

 

Iluminado de última hora: mais um exemplo da lógica das elites culturais (porque assim se consideram), desta vez um cientista, rendido às mensagens socialistas, a querer legitimar com a ciência e a conversa do ADN (e a ligeireza e arrogância com que arrumam numa mesma fórmula ADN com pessimismo é verdadeiranmente aterradora): Sobrinho Simões. Primeiro, ao vê-lo sentado num colóquio ou seminário, ao lado de Almeida Santos, ainda pensei que se tratava de mais um candidato do PS à presidência da República, só depois percebi que era o Grande Diagnóstico Médico-científico do ADN português, o Explicador da crise! Está finalmente descoberta a razão da crise: o povo português tem um espírito negativo.

Ora que grande chatice! O povo português já não quer colaborar, já está farto de trabalhar, agora deu-lhe para fechar as empresas, para emigrar... O povo português não acredita no futuro do país, no seu próprio futuro, desmoralizou, provavelmente cansou-se de pedalar em seco para sustentar as elites culturais e políticas.

Se as elites culturais e políticas fizessem uma auto-avaliação iriam chegar a outras conclusões bem mais plausíveis e científicas.

 

 

publicado às 10:05

"Não há política sem metapolítica"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.10

Uma voz inspirada, que já aqui veio diversas vezes, de Sobre o Tempo Que Passa, que nos traz as memórias e nos permite fazer a ponte cultural para as gerações seguintes. Há uma poesia implícita nesta voz, anterior ao plano científico. É um misto de poesia-ciência, a tentar compreender este percurso atribulado que é o percurso de um país: as narrativas ocultas e o papel dos cidadãos nesse percurso. E o papel que podem ainda desempenhar.

Agora também no Albergue Espanhol, este magnífico e emotivo post, Não há política sem metapolítica:

 

 

  Eu que, há poucos meses, peregrinei, com a Ana, pela ilha do Corvo, sentindo, num pequeno barco de borracha, o declive do mar, a partir das Flores, sei que os problemas financeiros apenas se resolvem com medidas financeiras, mas não apenas com medidas financeiras. A pátria, enquanto o principal mobilizador do bem comum, não é captável pelas agências de "rating" e constitui a principal mais valia porque é comunidade de coisas que se amam, coisa que nenhum despacho do despotismo ministerial pode decretar. E a maneira de madeirenses e açorianos acederem à república maior das liberdades nacionais exige compreensão pela aventura atlântica de resistência insular. A pátria não se mede pelas coisas fungíveis e não se explica apenas por orçamentos e balanços. Um povo é uma comunidade de significações partilhadas e os homens comuns sentem que o valor mais alto é esta solidariedade sentida depois de uma tragédia que baralhou todas as lógicas merceeiras que nos amarfanhavam...

 

Julgo que as boas intenções dos que pretendiam transformar as finanças das regiões autónomas num exemplo de tratamento de choque revelaram a tacanhez infernal dos que não compreendem que as pátrias e, dentro delas, as regiões autónomas que não se fizeram por decreto do estadão ou por despachos mercantilistas de ministros, mas pela vontade dos povos, são metapolítica. As pátrias, enquanto repúblicas maiores, são sempre um laço de amor, desde a terra, donde olhamos o mais além, aos próprios mortos que a transformam em memória e saudades de futuro. E ai da política se não resistir na procura do que vai além da física do poder. Não há salvação financeira sem patriotismo e não há patriotismo sem saudável regionalismo! Agradeço aos amigos da blogosfera, nossa casa comum, a solidariedade manifestada, nesta hora de dor pessoal e familiar.  "

 

 

 

publicado às 12:18

Antecipação de uma nova Primavera

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.12.09

Não, não vou esperar aqui sentada em pose melancólica por uma Primavera que nem sei se virá. Vou antecipá-la, mesmo que nunca venha a amanhecer por aqui.

 

A minha Primavera preferida não é a mais celebrada por cá. Não é a minha. A minha Primavera é outra, muito diferente.

É o brilho nos olhos de quem sonha, de quem é livre por dentro, de quem parte porque ficar é murchar, de quem volta e quando volta fala de aventuras.

A minha Primavera são livros que li, filmes que vi, vozes que ouvi, personagens magníficas, únicas, que pré-existiram e outras que ainda conheci. 

A minha Primavera são as rosas breves de Santa Teresinha, as que floriam em Maio.

A minha Primavera são rituais simples, gestos poéticos, silêncios.

A minha Primavera é também a música, quando ouvia "A Noite Passada" do Pré-Histórias do Sérgio Godinho no meu radiozinho de pilhas. 

 

Tive a sorte (ou o azar) de poder ler todos os livros das prateleiras e ver os filmes a preto e branco que passavam na televisão.

Pior foi depois, acertar a alma com o país que existia, cinzento e triste.

Se a Primavera que nos anunciaram me alegrou? Com aqueles símbolos bélicos? E aqueles gritos histéricos? Não.

Sonhei com outra Primavera, que eu já a tinha visto em muitos olhares, sorrisos, vozes, livros e filmes! Não era ainda aquela.

Se escandalizo algumas boas almas, quando digo isto? Que esta não era a minha Primavera, a Primavera anunciada?

Não faz mal, poucos passam por aqui... e os que passam, já sabem de mim o suficiente para não me levar a mal.

 

Esta entrevista recente de António Barreto e o que anuncia, um portal na internet com dados sobre este país de novo cinzento e triste, e ensaios periodicos sobre os temas essenciais, já me mostrou que pode ainda ser possível uma Primavera por aqui.

Que vá à nossa memória colectiva, que de lá retire o melhor de nós, para nos lembrar quem fomos e quem ainda podemos vir a ser. É a partir do melhor de nós que podemos melhorar, evitando os erros e os desvios.

E são tão fáceis os desvios. Sim, talvez ainda seja possível uma nova Primavera...

 

O Vozes Dissonantes, este cantinho sossegado, fica por aqui, meus queridos amigos.

 

Que a Primavera vos venha também chamar, baixinho, amorosamente desta vez, porque o stress não inspira à melhor acção nem à mais eficaz.

Sim, que a Primavera vos atraia de novo, um vento refrescante no rosto, e uma nova alma, uma alma acesa!

Um grande abraço a todos! E obrigada pela vossa amabilidade e paciência. (Às vezes sou um pouco chata, reconheço). Ah, já me esquecia. Continuo a navegar aqui e a sonhar ali.

 

 

publicado às 12:28

Uma Política com valores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.02.09

Uma Política com valores, como a verdade e a transparência, o respeito pelo cidadão-contribuinte, o sentido de comunidade e de bem comum, é a que permite restaurar a confiança no Estado e nas instituições-chave da democracia e a que melhor prepara o país para os novos desafios.
Uma Política para o séc. XXI que em vez de entender o poder como controle e domesticação, com uma tendência para intervir e condicionar, respeite a iniciativa e criatividade das comunidades e do país em geral, respeite o cidadão, esteja aberta à sua participação activa e dê espaço a decisões e escolhas, livres e responsáveis.
Por isso, a minha esperança está nas novas gerações. A abertura e receptividade à colaboração activa dos jovens, muitos deles talentosos em diversas áreas fundamentais (economia, gestão, política, sociologia, pedagogia, novas tecnologias, psicologia social, etc.); que debatem ideias, analisam e aprofundam; que não perdem tempo e energias com questões laterais e superficiais que condicionam actualmente qualquer intervenção; que estão habituados a trabalhar em equipa; que sabem organizar e concretizar projectos, com sentido de responsabilidade, avaliando o seu próprio trabalho em função dos resultados, a flexibilidade necessária para corrigir a rota e as estratégias e a maturidade para respeitar o interesse comum de uma comunidade e de um país.

Os recursos humanos são a maior riqueza de um país.
Ainda espero conseguir analisar aqui que o problema do país está mais ao nível da gestão dos recursos humanos, seja pública seja privada, do que nos recursos humanos propriamente ditos. Não admira que os melhores estejam a debandar para outros países.
Muito por fazer, não é?


publicado às 15:36

3. Como a Justiça é percebida pelos cidadãos como “coisa para ricos” e as instituições-chave da democracia perderam credibilidade.
A Educação (de que já falei) e a Justiça, juntas, formam o esqueleto da democracia e viabilizam a economia de um país: a Educação, porque prepara os recursos humanos; a Justiça, porque permite o equilíbrio nas relações entre cidadãos, empresas, instituições.
Sem estes dois pilares a funcionar de forma saudável, perde-se a eficácia das competências necessárias (recursos humanos) e a confiança no relacionamento entre indivíduos, empresas, instituições.
A Justiça hoje é percebida pelo cidadão comum como “coisa para ricos”, em que ganha uma causa quem pode pagar a um bom advogado. A Justiça é-lhe inacessível. Logo, está entregue a si próprio. Completamente indefeso. O cidadão comum já percebeu isso ao ver como alguns processos estão a decorrer. Isto é gravíssimo, numa altura do campeonato em que algumas empresas e organizações (o fisco, as petrolíferas, a banca, etc.), se estão a tornar prepotentes, agressivas e até invasivas dos direitos dos cidadãos para lhes “sacar” o que andaram a perder em operações duvidosas e especulações financeiras. Logo, teremos em breve a “lei da selva” por aí. Mais perverso ainda quando é o mesmo cidadão, que não tem acesso à Justiça, o que paga os seus serviços e estragos. Pior é impossível!
Quem se arrisca a investir num país em que a Justiça não funciona, a não ser para proteger irregularidades? E isto tem um efeito dominó para a Segurança também. E vive-versa. Este é o país onde se atacam pessoas dentro de uma esquadra de polícia e dentro de um tribunal. Este país está é a transformar-se no “paraíso dos malfeitores”. (Lembram-se daqueles jogos infantis em que havia um lugar protegido, em que o perseguidor não nos podia tocar? Um “santuário”? Pois bem, estamos perto de ser o “santuário” dos malfeitores internacionais). Vai uma apostinha?
Estamos actualmente numa situação crítica, muito frágil mesmo. Não é só a Economia, a Educação, a Justiça, a Segurança, é ainda a progressivaperda de credibilidade de instituições-chave numa democracia moderna e num estado de direito saudável.
Total descrédito: Banco de Portugal e Autoridade da Concorrência;
Alguma credibilidade (mas com tendência negativa): Assembleia da República e Procuradoria Geral da República;
Credível (mas com poucos meios para responder a tantas solicitações): Provedor de Justiça.
Está tudo interligado, como veremos. Este cenário lembra-me cada vez mais o Estado Novo. Só nos falta a Pide e a Guerra Colonial. É certo que no Estado Novo havia aquele “respeitinho” e subserviência q.b. Não se dizia alto o que se pensava baixinho. Mas fora a algazarra geral, a histeria colectiva, esses tubos de escape, temos todos os ingredientes: aumento das desigualdades sociais; corporativismo; favorecimentos; encobrir grandes irregularidades e perseguir os pequenos fora-da-lei; a delação; a prepotência; a arbitrariedade; etc. etc.
Estas formas obsoletas, incultas e provincianas de organização social não podem ser inscritas na designação “democracia”, a não ser num sentido muito lato do termo. Onde não se verifica uma concorrência saudável de mercado; onde as novas gerações não estão a ser preparadas para os desafios do séc XXI; onde não existem condições para garantir o equilíbrio no relacionamento entre indivíduos, empresas, instituições; onde a segurança de vidas e bens está constantemente em perigo; digam-me se este “salve-se quem puder” se inscreve na fórmula “democracia”. Não me parece.
Bem, ainda falta a Saúde, a Defesa, a Cultura e os Negócios Estrangeiros, não é?
Da Saúde gostaria apenas de referir este recente “quase convite” ao cidadão que mora no interior do país (esquecido por este governo), ali na zona da raia, a ir tratar-se a Espanha.
Da Defesa, não tenho acompanhado os últimos episódios.
Quanto à Cultura, acho que desapareceu. Só deu sinais de vida para falar do acordo ortográfico.
E parece que o ministério dos Negócios Estrangeiros é o que está com melhor imagem junto do cidadão. Será porque é sobre negócios estrangeiros?
E mesmo que o meu olhar seja sombrio (talvez porque exercito a memória e cultivo a observação atenta a pormenores), e que o que aqui digo seja exagerado, ou até injusto, este é o olhar do cidadão comum, pelo menos do que eu tenho captado. O que quer dizer que há a necessidade urgente de restaurar qualquer coisa de fundamental: a confiança no estado, nas instituições-chave, nas organizações, nas empresas, etc. Por alguma razão essa confiança está por um fio...
Quanto à viabilidade do país, viro-me para as novas gerações. Políticos sem personality issues, como: necessidade de afirmação pessoal; necessidade de protagonismo; ambição individual desmedida; egocentrismo e imaturidade; baixo limiar de resistência à frustração; visão do poder como poder pessoal; fracas aptidões sociais como a capacidade de empatia e de negociação; fraco sentido de responsabilidade; ausência de cultura comunitária e de bem comum; ausência de valores sociais; etc. etc.
Assim, o contrário disto forma o político para o séc. XXI. Abarcar todas as qualidades referidas seria o ideal, e ainda falta aqui o carisma, o entusiasmo, a visão de um caminho, a capacidade de animar e mobilizar grupos de trabalho, as raras capacidades de comunicação. Lembrar também que estas capacidades são percebidas pelo cidadão porque confia no político (atribui-lhe credibilidade) e essa confiança constrói-se, não surge do nada nem de uma operação de cosmética ou de marketing político.
Dou-vos apenas dois exemplos de algumas destas qualidades num político, e escolho propositadamente dois políticos portugueses presentes na nossa história recente mas infelizmente ausentes antes do seu tempo vital: Sá Carneiro e o General sem medo. Assim não serei mal interpretada nem injusta com os actuais políticos. Mas posso referir um inglês, que se aproxima deste modelo de novo político para o séc. XXI: David Cameron.

 

 

publicado às 11:35

Da Economia e do emprego passamos então para a Educação. Aqui tenho de dizer que o jornalismo caseiro esteve bem. Acompanhou a triste saga dos professores desde o início (e eu vou aqui lembrar o início). E além de acompanhar a saga, em notícias e em entrevistas, conseguiu Reportagens muito bem concebidas. É aqui que está um dos filões do jornalismo caseiro: são óptimos nas Reportagens!
Sim, o jornalismo caseiro esteve bem no tema Educação. Esteve muito melhor do que o comentário político doméstico, mas isso não é muito difícil. Vamos lá então à saga dos professores.

2. Como o governo desvirtuou e desmantelou a Escola Pública e como descaracterizou e esvaziou o papel do Professor.

Já viram alguma vez o filme de Alain Resnais O meu Tio da América? Pois bem, para compreenderem melhor a saga dos professores, desde que esta equipa iniciou a sua vassourada (como a bruxa d' O Feiticeiro de Oz), sugiro-vos este filme. Vamos lá então começar: Alain Resnais pega num determinado indivíduo (magnífico Gérard Dépardieu) que vai ser sujeito a diversas situações ansiógenas (isto é, que geram ansiedade) e, para analisar o seu comportamento (isto é, como vai lidar com as situações), faz um paralelismo interessantíssimo com os ratinhos de laboratório num “labirinto armadilhado”. Delicioso... Esta ideia de “labirinto armadilhado” vem mesmo a calhar porque exemplifica na perfeição as diversas situações ansiógenas a que os professores se viram sujeitos. Senão vejamos:
Como é que o nosso professor estava antes da vassourada ministerial? Lembram-se? A indisciplina escolar, turmas heterogéneas, violência nas escolas... só para nomear algumas das situações ansiógenas com que os professores tinham de lidar. Ora, por cima disto ainda lhe vai cair o seguinte:
1ª situação-impacto (choques eléctricos para o ratinho de laboratório, o que está metido no tal labirinto armadilhado): a desvalorização da violência escolar, pela ministra. Isso era um exagero do Procurador da República, estava tudo sob controle, as escolas estavam a lidar bem com a situação.
Como lidar com isto, qual a resposta dos professores? Apresentar queixa alivia temporariamente o stress, mas não resolve a situação: pais furiosos ou estragos no carro, etc. Muitos evitam apresentar queixa com receio de penalizações, como a tal culpabilização de não saber lidar com situações de conflito. E não apresentar queixa implica de imediato um aumento do nível do stress...
No caso do ratinho, ele vai aprendendo a escapar aos choques eléctricos como pode, get it? Comportamento de fuga, descoberta de uma saída, pelos corredores labirínticos. O nosso Gérard Dépardieu também lá vai ficando mais ansioso, à medida que as situações se complicam.
2ª situação-impacto (mais choques eléctricos para o ratinho): primeira desvalorização das funções pedagógicas do professor com as aulas de substituição, passando a ser também “guardador de crianças e jovens”. Esta forma de organizar os períodos escolares devia ser efectuada pelas próprias escolas, internamente, na tal so called filosofia da Autonomia Escolar que, como veremos, é pura ficção.
3ª situação-impacto (mais choques eléctricos): segunda desvalorização das funções pedagógicas do professor com a divisão administrativa da carreira docente em duas categorias: titular (o que tem títulos?) e professor propriamente dito. Isto já não é uma simples amolgadela, isto é mesmo uma machadada e nesta altura o nosso ratinho já está meio pelado de tanta descarga eléctrica!
Situação arbitrária e injusta, mas com a marca registada do PS: a) gosta de títulos (que pueril!), mas não baseados no mérito; b) decide de cima para baixo de forma unilateral e prepotente (mais ou menos como Israel na faixa de Gaza); c) é totalmente insensível e até indiferente à noção de justiça, impondo de forma arbitrária; d) mais grave ainda, gosta de pregar partidas: mudar as regras do jogo a meio do jogo e apanhar a vítima de surpresa; e) também gosta de cansar a vítima por exaustão, massacrando-a com normas, orientações e legislação ilegível; f) desconhece as regras básicas de gestão de recursos humanos.
Voltando à divisão arbitrária e administrativa da carreira docente: o que passa a valer é mesmo os “cargos de gestão” (os mais pontuados). Quem preferiu ensinar na sala de aula ficou assim desvalorizado na tal pontuação pueril... O mesmo é dizer que as suas funções específicas e mais nobres, as pedagógicas, são aqui desqualificadas.
Tal como o ratinho, muitos professores, já perto do final da carreira, optaram pelo comportamento de fuga e aproveitaram para pedir a reforma antecipada, saindo mesmo com penalização. Isto aliviou-lhes o stress e, muito provavelmente, aumentou-lhes em meses, e até anos, a sua esperança de vida!
Os outros, os que não puderam fugir, começaram a mobilizar-se, a unir-se, a trocar ideias e opiniões, a encontrar no grande grupo o apoio e coesão que já não encontram na sua escola, em que o ambiente de trabalho se começou a deteriorar. Nestas caminhadas de protesto o stress é aliviado momentaneamente. Caminhará pelas ruas de Lisboa. Exprimirá a sua indignação e defenderá a Escola Pública, o Ensino, o Estatuto e a carreira docente.
Mas o sistema tem meios kafkianos de se impor, como veremos, e um deles é dividir para reinar, outro é isolar para intimidar.
4ª situação-impacto (aqui o nosso ratinho já se sente electrocutado): completa desvalorização da carreira, estatuto e autoridade do professor, com a imposição, novamente arbitrária, incoerente, injusta e medíocre de um modelo de avaliação inclassificável. O professor é condicionado a manter e a alimentar a fantasia pueril de um sucesso escolar estatístico. Ora, isto não é apenas uma machadada na carreira docente e na especificidade das suas funções (as pedagógicas), é também uma machadada mortal na Escola Pública. Sim, este modelo de avaliação que lhe impõem é mais do que kafkiano, é mesmo draculiano! E mesmo que venham argumentar que o conseguiram simplificar, isso é ainda mais grave! Um modelo de avaliação tem de ter uma lógica, um equilíbrio e uma coesão internas que sirvam de forma exacta e fidedigna o que pretende fazer: avaliar de forma eficaz, justa e discriminativa o mérito profissional individual. Ora, mexer num modelo, que se pretende minimamente científico, só pode piorar as coisas. E se houve a necessidade de o simplificar, é porque não era viável.
E isto acompanhado por normas, sugestões, orientações, decretos-lei, praticamente incompreensíveis, com que os professores são bombardeados diariamente. Papelada e papelada. Pior é impossível!
Hoje temos uma Escola Pública que é uma sombra do que já foi. Agora os jovens de meios menos favorecidos perderam o acesso a uma escola de qualidade. De simplificação em simplificação, de programas medíocres e pouco estimulantes a exames cada vez mais fáceis, assim se vai programando sistematicamente uma geração de escravos. Podem falar em sucesso, mas o que aqui se passou é gravíssimo! Como se vão preparar as novas gerações para os novos desafios do séc. XXI? Mas como podemos perguntar isto a este PS pueril no poder? Ele nem sabe que está no séc. XXI... Viram na Economia? Ele deve andar por ali em meados do séc. XX. Vai uma apostinha?

 

publicado às 11:13

Este país desconcerta-me. O que é que se passa? Em vez de se tratarem das questões essenciais, fazer uma verdadeira avaliação política da governação, anda-se de "telenovela" em "telenovela"?

Já o disse aqui atrás, em 12 de Setembro, no post "O jornalismo caseiro e o comentário político doméstico": a comunicação social não vai ao essencial. E não é só ficar pela superficialidade. É errar o alvo. Falhar a notícia.

Guiarem-se pelas vendas ou pelas audiências terá um preço, get it? Onde é que uma alminha curiosa e verdadeiramente interessada em política a sério se irá informar? À internet, à blogosfera, a lugares livres e que analisam e aprofundam a realidade social, económica, científica e cultural.

 

Mas já agora eu digo-vos o que é a notícia:

 

1. O estado económico e social a que chegámos:

Analisar e explicar porque: estamos tão mal preparados para enfrentar a crise financeira global; porque temos um fraco apoio da UE; porque não se prepararam medidas eficazes e consequentes, mas apenas intervenções avulsas e sem critério ou lógica identificáveis; explicar porque se reduziu o défice orçamental à custa do cidadão comum, mas não se reduziram as despesas do Estado nem os vencimentos dos gestores das empresas públicas; porque se continuou a derrapar nos custos; porque temos um Banco de Portugal que não serve para nada a não ser "encobrir" as irregularidades dos bancos e validar os números do governo; negócios megalómanos como o TGV; porque nos foram vender à China por baixos salários; porque nunca coincidem os números do desemprego; porque não há um estudo fiável sobre a evolução do desemprego neste anos mais recentes nem os fluxos migratórios mais recentes; e ainda uma lista das empresas que fecharam antes da crise financeira global, etc.

 

Breve intervalo, porque a seguir vem a Educação e a Escola Pública, já desmantelada por este governo.

 

publicado às 13:09

Those naughty boys... pensei eu para os meus botões. Um sorriso começou a formar-se nos neurónios já cansados e a espalhar-se por todas as células ainda acordadas. Deixei-me invadir por um renovado entusiasmo, ainda indefinido mas ainda assim energético. O bem comum, pois...


Nas minhas viagens blogosféricas, o que mais me fascina é a inteligência, o nosso melhor recurso. Lá está, viva, como um filão por descobrir. A seguir, a criatividade. Céus!, aquilo é uma lufada de ar fresco. Depois, a irreverência, a ironia, a comunicação.
Há muita emoção também. E por vezes algum sarcasmo. Mas não creio que seja propriamente destrutivo.


A blogosfera é, a meu ver, uma comunidade diversa e criativa, de:
- inteligência, que observa, analisa, critica, propõe;
- sensibilidade artística, que cria, descasca, revolve, provoca;
- ironia, que vira ao contrário, relativiza, exagera, desarma;
- comunicação, que troca informação, acolhe, apoia, inspira;
- espaço de expressão individual, muito próximo do diário ou da criação literária, alguma com imensa qualidade. 

 

Quando comecei a interagir, digamos assim, com outros bloggers, descobri três atitudes mais frequentes:
- uma amabilidade e gosto pelo debate;
- uma tolerância e muita paciência;
- uma indiferença distante e polida.


Não parti com expectativas, por isso me surpreendeu o enorme poder de encaixe (tolerância) da maioria dos bloggers com quem interagi.
No calor desta tragédia, que ainda se mantém na Faixa de Gaza, foi a mim que me saltou a tampa! Acabei por me deixar dominar pela emoção, ao tentar defender valores que são sagrados para mim: o direito à vida, a segurança e bem-estar das crianças, o seu direito a um futuro, a uma vida com dignidade. E, evidentemente, a seguir às crianças, os jovens, as mães, os mais velhos, e os restantes adultos. (1) Estes direitos são universais e não são negociáveis, são o que melhor nos define como humanos. Sem estes direitos básicos não há viabilidade para a nossa espécie.


Claro que parto do princípio que todos defendemos os direitos humanos universais! Mas há leituras mais distanciadas do que outras. A minha aqui não se distanciou, ficou colada ao sofrimento que se devia ter evitado. E podia-se ter evitado, se a inteligência fosse melhor utilizada e existisse uma consciência mais abrangente.


Mas há outro valor para mim, que já não coloco no plano do sagrado, mas que ainda assim é fundamental em qualquer democracia digna desse nome: o bem comum.
Desconfio que este valor é submetido à ironia condescendente (e aqui de novo um sorriso me anima os dias: those naughty boys...) e por momentos sinto-me como aquela personagem da Barbara Streisand: uma activista inflamada, obsessiva, chata, moralista. Estão a ver o filme?, entra o Robert Redford na sua melhor fase, descontraído e poético...?


O bem comum, dito assim, é um conceito aparentemente moralista, de activistas possessos. Mas não é essa a minha visão, nem podia ser.
Sou avessa a moralismos, a evangelizações e a pregações. (E um dia ainda espero desenvolver aqui este tema, este grande equívoco: a maior religião actual no país é este laicismo militante que quer destruir precisamente os valores que sempre nos orientaram e que têm raízes cristãs).
Sou absolutamente alérgica a tudo o que soe a violência, seja de que espécie for. Não é por aí. Também não é por um pacifismo de cordeirinhos para o sacrifício. (2)


Sou pela inteligência e criatividade, por uma consciência mais abrangente. Claro que isto implica uma autonomia de pensamento e de acção que ainda não temos, mas que podemos defender, a começar agora.


A minha visão de bem comum não é o que nos é imposto (socialismo) ou proposto (democracia actual) de cima, tantas vezes arbitrariamente, sem critério, sem respeito pelo cidadão comum.


O bem comum é um valor em si mesmo porque é aceite naturalmente por todos os cidadãos envolvidos. O seu valor é intrínseco: é aceite sem qualquer hesitação, sem qualquer dúvida, por todos os cidadãos envolvidos.


Um exemplo que me caiu do céu vem-me da “Quinta do Sargaçal”, a minha primeira descoberta deste Ano Novo:

 

http://www.sargacal.com/2009/01/08/estudante-atrapalha-a-atribuicao-do-ultimo-presente-de-bush-as-petroliferas-e-carvoeiras/

 

 

Penso que não nos ficam quaisquer dúvidas de que se trata de uma iniciativa de um cidadão comum que, num dado momento decide, de forma consciente e responsável (embora irreverente e ousada), tomar uma iniciativa pelo bem comum. Esperou que outros avançassem, mas o tempo era escasso (estes suits da Administração Bush não brincam em serviço!) e resolveu avançar. Chama-se a esta iniciativa Desobediência Cívica. Tem os seus custos, as suas consequências, mas também tem a melhor compensação de todas. A primeira, a união de esforços por uma causa comum, a contribuição de todos os que aderiram, quiseram (ou puderam contribuir): esta é a melhor expressão de uma democracia de qualidade.


Podem chamar-me lírica, já estou habituada, em casa era sonhadora, ingénua, vive na lua... Consigo viver com isso. O que me custa é que às vezes sou um bocado chata (bem, às vezes sou muito chata), e vejo-me no papel incómodo da Barbara Streisand naquele filme com o Robert Redford... (Aliás, o Robert Redford também entra neste filme da defesa do bem comum, e é entrevistado por uma jornalista conceituada nestas defesas dos direitos humanos e outros valores do bem comum).

 

 

(1) Esta foi mais ou menos a ordem de salvamento dos sobreviventes do Titanic. Como seria agora? I wonder...

 

(2) Este dilema também é dificílimo se decifrar: viram a reportagem de Louis Theroux na África do Sul?

 

 

publicado às 12:30


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